A tempestade

Uma “barra da serra” e um ventinho muito suave e frio, vindos da Boca das Torrinhas, descem lentamente das
montanhas, dão os primeiros indícios de que se aproxima uma tempestade. Estes sinais são mais que suficientes
para quem não tendo outra informação meteorológica teve que aprender com os sinais da natureza. A
preocupação é grande e começa uma corrida contra o tempo para acautelar animais e tudo o que possa estar
em perigo. À medida que a noite se aproxima o nevoeiro vai ficando mais denso e escuro, provocando nas
pessoas agonia e ansiedade.
Sem que ninguém se apercebesse, todos estão envolvidos na escuridão completa...não há velas nem
candeeiros que resistam...chove torrencialmente, ouve-se o ranger das árvores com a força do vento....a chuva
bate fortemente no zinco dos palheiros e nos telhados das casas. Não há tempo para pensar na ceia. Uns á volta
da lareira, outros já deitados aguardam assustadoramente e em silêncio, enrolados no seu corpo, pela chegada
dos trovões...passam alguns segundos e tudo fica claro como se fosse dia. Pela intensidade da luz já sabem o
estrondo do trovão...Chove ainda mais, já se ouvem as pedras a rolar pelas ribeiras e corgos, já há água por
tudo quanto é sitio, ouve-se ao longe mais uma derrocada...as horas nunca mais passa o tempo de angustia
parece não terminar. Enquanto se reza para aliviar a dor, pensa-se nos que foram para a cidade e nos que
vinham no caminho de regresso, nos que ficaram na outra margem da ribeira e nos que tiveram que pernoitar
nos palheiros em fazendas distantes.
...A chuva é cada vez mais intensa, o vento forte empurra pelas frestas das telhas e das portas umas gotas
geladas. As paredes das casas, em pedra já estão molhadas, só servem par proteger do primeiro embate da
tempestade porque pela madrugada já tudo está gelado e empapado.
O “tempo” parece amainar, dão-se os primeiros suspiros de alivio, aguarda-se pelo romper do dia para  ver por
onde e como começar.
No cimo dos montes rompem os primeiros raios de sol, sopra uma brisa fresca de Sul, desta vez os homens
acordam primeiro que os galos, reina um sossego perturbador, nas capoeiras e nos palheiros, é uma paz e um
silêncio inquietantes. Há medida que o Sol vai cobrindo as montanhas, vai também aquecendo o vale, e aos
poucos toda a natureza começa a despertar, parece vinda de um estado de hibernação.
Afinal tudo parece ter terminado sem grandes danos. As preces foram ouvidas e nos primeiros comentários da
manhã, todos acreditam que afinal até as tempestades trazem benefícios. Se é a natureza que as provoca é
porque também beneficia: As chuvas limparam os telhados, quintais e árvores das poeiras, regou as árvores e
plantas que normalmente não é possível regar, as ribeiras e os corgos protegeram as pessoas e as hortas das
inundações, recebendo e orientando todos os fios de água. Os trovões fortes estremeceram as rochas e as que
estavam na iminência de cair, caíram sem por ninguém  em risco.
Sem meios para se protegeram da tempestade acaba por ser a própria natureza quem os protege.