|
PRIMAVERA
...Ainda correm nas montanhas pequenos fios de água que brotam das nascentes que constituem as reservas naturais para consumo nos períodos de calor...todos parecem compreender a utilidade e necessidade das chuvas que caíram. Os poços escavados nas rochas, constituem os reservatórios de água para o Verão estão agora a transbordar Mas agora o que todos querem é o regresso do sol. Amanhece cada vez mais cedo e, progressivamente os dias vão ficando mais longos, dando mais tempo para que toda a vegetação recupere e desperte do grande período das chuvas e do frio. Inicia-se então uma estação de muito trabalho e de muita agitação. Começa mais um ciclo na vida das pessoas e das montanhas. È necessário preparar as terras para as primeiras plantações, restaurar as casas, veredas... Na natureza também é grande a azáfama. Há no ar uma energia mágica que parece envolver tudo e todos. Os pássaros andam num rodopio interminável na construção dos ninhos, provocando, um chilrear desconsertante, mas agradável aos ouvidos. As arvores aos poucos vão cobrindo-se de flores e folhas, preparando-se para dar os contributos com os cores, cheiros e aromas. Paira no ar uma atmosfera de euforia, um entusiasmo próprio de uma vida nova que renasce a cada momento, reflecte-se nas pessoas Grupos de crianças entre os dez e os catorze anos, resistentes dos Invernos, rigorosos, resistentes das febres e doenças, resistentes da subnutrição, resistentes ao desconforto das casas, resistentes á faltas de cuidados médicos, mas sobretudo resistentes á grande mortalidade infantil. Partem, agora que é “Primavera”, e que o tempo começa a melhorar, de manhã bem cedo em direcção á Boca das Torrinhas onde irão colher lenha de urze para prepara o carvão. Trabalham arduamente durante todo o dia para tentar juntar o máximo de lenha possível. Depois de juntarem toda a lenha num monte, numa clareira, ateiam-lhe lume e com o apoio dos adultos inicia-se a produção do carvão vegetal. È uma tarefa árdua e difícil, agora só é necessário transportar água para ir apagando o lume á medida que o carvão vai “ficando no ponto”. Esta tarefa não pode ser interrompida, sem tudo ficar devidamente seguro e sem que o fogo fique totalmente extinto. Regressam a casa transportando pequenos molhos de lenha e ervas para os animais. No dia seguinte regressam novamente ao mesmo local. Preparam o carvão e enchem os sacos para ser transportado para casa onde irá ser novamente acondicionado. Estas crianças chegam a casa ao anoitecer, parecem sombras ambulantes, no escuro da noite: pretos e soados como o carvão, esfomeados e cansados, contrastando com tudo o que possa parecer com Primavera. Começa assim a Primavera das suas vidas, aquela que deveria ser a mais feliz etapa das suas estações, mas se a primavera dos doze anos é assim como será o Outono dos trinta ou o Inverno dos cinquenta? Depois de descansarem um pouco, antes ainda de se lavarem ou comerem, têm que acondicionar melhor as sacas distribuir o peso, mais adequado para cada um., prepara os molhos de lenha, porque amanhã partirão bem cedo, para a cidade. Depois de se refrescarem, sentam-se á mesa e olham para a refeição que invariavelmente os espera, umas batatas, um pouco mais claras, mas que ainda lembram o carvão e que teimam em nunca acabar com esta ementa, “ não fosse as ameixas que comemos na serra...” “aínda agora começou... foi o que Nosso Senhor deparou” Acordam sempre cedo. Transportar carga para vender no Funchal, apesar de não ser nada fácil ,é contudo a parte mais compensadora. Partem todos uns com sacos de carvão, legumes, frutas e outros com pequenos molhos de lenha para consumo doméstico. Inicia-se novamente a subida penosa em direcção á Eira do Serrado, os mais velhos avançam e como de costume irão parar num “Descanso “, já quase no cimo do monte, para se reagruparem. Os mais fracos e mais pequenos, ficaram para trás. Caminham de cabeça baixa devido aos molhos de lenha que transportam e ao acidentado do percurso deslocam-se com o corpo nesta posição. O primeiro do grupo esbarra num enorme vulto, que se lhe atravessa no caminho. Assustado solta um grito que ecoa nas ravinas. Deixa cair no chão o molho de lenha que transporta, segurando com as mãos e com toda a fragilidade das suas forças. Levanta a cabeça e vê á sua frente o monstro do “ Vigia das Comissões”. Um carrasco rude, que escondido entre os arbustos, deixou, sorrateiramente passar os adultos, com as outras cargas e como o abutre tenta abater a presa mais fácil. Berra com os miúdos “ onde arranjas-te essa lenha?..com voz tremula e apavorado o rapazinho explica que perdeu dois dias e que foi juntá-la dos troncos secos muito longe à Boca das Torrinhas . “Então para que aprendas que essas serras não vos pertencem e para que não voltes a roubar vais ver para que serve...”. O “Vigia das Comissões” furioso, num gesto violento e arrogante atira com a lenha para o fundo de um abismo e dirigindo-se ao rapazinho “ vês para que serve os teu trabalho vês o que acontece a quem anda a juntar lenha...vês para que serve a lenha”. O abutre solta umas gargalhadas que ecoam pelos montes. Cada vez mais furioso vai repetindo os gestos e as gargalhadas com os restantes rapazes. Alguns os mais atrasados, apavorados com o sucedido abandonam a lenha e desatam a correr em direcção a casa. Um dos mais velhos, já com algumas situações idênticas acumuladas, consegue esconder-se num sítio e a lenha noutro, observando impotente ao que se passava com os irmãos mais novos. Cansados de esperar e já aflitos, Alguns dos adultos resolvem ir ao encontro, porque tanto atraso não era normal. Encontram o mais velho dos irmãos que lhes explica o sucedido. Do “vigia”, nem rasto. Desapareceu da mesma forma que apareceu. Provavelmente contínua, como um abutre, escondido, no cimo de um monte, a controlar os movimentos de todos. O “Vigia das Comissões” é o homem que fiscaliza as serras, o gado e fiscaliza também não se sabe mais o quê...sabe-se que é arrogante e que todos o temem. Não se sabe bem quem são as comissões porque possuem a maioria das montanhas. Sabe-se que são senhores poderosos donos de tudo o que os rodeia: os melhores terrenos, os melhores pomares, as florestas e terrenos mais acessíveis. Voltam a por as sacas de carvão às costas, o irmão mais velho junta-se ao grupo e partem. Vendem o carvão de porta em porta, o carvão é utilizado nos ferros de engomar e por isso não há casa que não o consuma, sobretudo este do curral, que é de boa qualidade e feito especialmente para o efeito. Ainda não eram dez e meia, já tinham terminado a venda. “ Teria sido um bom dia...mas há sempre qualquer coisa que faz com que os nossos dias nunca sejam bons, sobretudo como planeamos e como gostaríamos “. Não conseguem esquecer os mais novos que perderam a carga, foram humilhados, ofendidos. Mais importante do que a carga foi perder toda a ilusão, fantasia e entusiasmo de ir pela primeira vez á cidade. A ilusão e o sonho de ter um dia diferente no começo da Primavera.
|
|