Frágil como um ovo


Devido á grande altitude dos montes e á profundidade do vale, o Sol aproxima-se das casas, no centro do
vale, a partir das 10:30 horas, variando com as estações. Os hábitos rotineiros das pessoas parecem
adaptar-se a este movimento das estações. A esta hora normalmente as pessoas estão a terminar as
primeiras tarefas, que no rotineiro quotidiano, são sempre as mais difíceis. O dia começa sempre bem cedo
o cansaço e o calor obriga á primeira pausa. Cada estação traz consigo um conjunto de cheiros, sabores e
cores que a caracterizam. e   que inevitavelmente faz girar ,os hábitos de  uma rotina que nunca varia.
Durante todo o ano um homem recolhe pacientemente, de casa em casa, ovos, que delicadamente serão
seleccionados e cuidadosamente arrumados num cesto. Está cumprida a primeira etapa de um conjunto de
tarefas até que estes ovos completem o ciclo ao qual estão destinados. De manhã, bem cedo, parte
carregando a fragilidade de um cesto. Inicia a subida de milhares de degraus, que pausadamente terá que
palmilhar, desde a subida do Passo até á Eira do Serrado. A meio da subida pára e descansa na Volta
Grande. Aproveita o descanso e a maciez da manhã para apanhar mais algumas amoras silvestres que
certamente acrescentarão mais uns centavos à sua carga.
Reinicia o percurso, com um cesto mais colorido e perfumado. Nem dá pelo peso que leva a mais. O seu
entusiasmo palpita-lhe que se tudo correr bem, o negócio será bom e o regresso a casa será mais fácil. Na
descida para Santo António, planeia por onde e como inicia a venda. Sabe os clientes habituais para cada
tipo de produtos.
Ainda não tinha terminado o exercício mental do trajecto, inexplicavelmente dá por si estatelado num chão
coberto de ovos. Não se sente. Fica estático, sem mover o corpo, olha em redor, nem consegue olhar para
o seu corpo. Levanta lenta e assustadoramente a cabeça e aos poucos vais movendo cada um dos braços
e das pernas para se certificar que todas as manchas negras, na roupa e no corpo, são na maioria,
causadas pelo esmagamento das amoras.
Depois de recuperar do acidente, levanta-se, olha em redor para tentar localizar o cesto. Consegue
finalmente identificá-lo no fundo de um ribeiro. Aproveita para refrescar-se e livrar-se das manchas
negras...” estas saem facilmente com a água...” Senta-se e fica a pensar como livrar-se da nódoa que ficou
mais profunda, aquela que ninguém vê e que só ele é que a sente. Recupera o cesto e todo o vazio que lhe
resta. Regressa ao local onde caiu para tentar encontrar explicação. Senta-se e espera pelas dez e meia,
hora a que se tudo tivesse corrido com habitualmente estaria a terminar a distribuição dos produtos, ou
estaria provavelmente já a descansar... Olha o fundo do cesto com a alma vazia e uma tristeza tão triste
como o sofrimento de quem não tem mais nada que perder, porque perdeu até o que não tinha...Mas um
misto de força, vergonha e coragem ainda o transportam para a cidade, como se tudo tivesse corrido
normalmente. Na cidade, quando encontra os amigos, diz que vendeu tudo rapidamente “ mais houvesse” .
Sem um centavo no bolso, resta-lhe procurar mercadoria para transportar no regresso. Há sempre nos
locais de encontro e nos armazéns, cargas diversas, para as vendas e outros materiais, mesmo de pessoas
particulares.
A ânsia de se redimir e as necessidades dos que ficaram em casa leva-o a transportar uma carga ainda
mais pesada, parece querer vencer todas as contrariedades, desta forma com um auto flagelo, como que
querendo compensar tudo o que perdeu.
Parte juntamente com os colegas de regresso ao. Curral. Pelo caminho param várias vezes para descansar,
aguenta fortemente o cansaço e a angustia que transporta. Só pára quando os outros param.
Na passagem pelo local, onde tinha perdido tudo o que transportava os colegas apercebem-se do sucedido
e comentam entre si “realmente vendeu tudo...mais que houvesse”.
Não aguenta...sente o corpo a tremer. As forças começam a esgotar-se. Pára par descansar. Não consegue
descansar, sente uma angústia e um desalento. Olha os colegas já com um avanço razoável. Não quer ficar
para traz e volta á carga e tenta recuperar o tempo perdido. Vai já no limite das forças. Numa das voltas,
perde os colegas de vista.
Uns metros mais á frente todos os amigos aguardam, não o querem só, nem com aquela tristeza. Com gesto
de amizade e de solidariedade, tentam conversar, lutam entre si para romper a montanha de silencio que os
envolve, com algumas frases soltas e alguns provérbios, tentam anima-lo, sabem que não é fácil, porque
todos eles já passaram por situações idênticas... Alguns contam que, também já lhes tinha sucedido o
mesmo, “mas...que se há-de fazer...o pior ainda é quando se perde a carga e ficamos feridos… E sabe-se lá
o que nos espera...”. Outro diz que apesar de tudo ele ainda teve sorte porque já lhe tinha sucedido o
mesmo e quando chegou á cidade para procurar uma carga para levar para o curral, já não havia em lado
nenhum, já tinham passado todos pelos armazéns e não havia nada. teve que regressar sem carga para
casa. Todos enumeram e narram situações ainda mais dramáticas, tentando atenuar um pouco aquele
desalento e sofrimento. Mas sem se aperceberem estão a mergulhar na realidade da dureza triste das suas
vidas, o que os deixa mais amargurados...”mordedela de cão cura-se com o pelo do mesmo” sabem todos
que não podem esmorecer, apesar de todos os contratempos o caminho é sempre o mesmo...“ mas... Deus
é grande...”.
Voltar para casa sem carga é como se fosse um castigo. Todos sabem que esta é uma fatalidade do destino.
Está a ficar tarde. Decidiram dividir o excesso de carga entre todos e partem para a etapa final.
Sentem-se com outro ânimo. Os pensamentos, que partilharam, durante o descanso, parecem ter-lhes dado
novo alento e sem saberem, cada um com a sua “ carga”, todos vão pensando no mesmo, ” compartilhando
tudo o que é possível compartilhar, da vereda ás emoções, as nossas vidas tornam-se mais fáceis quando
lutamos juntos pelos mesmos objectivos.” Perder faz parte de quem quer cumprir as regras da vida, numa
luta onde a vitoria está sempre distante. Perder ás vezes não é em vão se superarmos as provas com
dignidade, coragem, espírito de luta e respeito por nós próprios.
Cada dia é um novo desafio, é uma nova tentativa, é mais uma oportunidade. Mas para estas gentes todas
estas oportunidades e desafios são acima de tudo uma forma de sobrevivência. Mas todos já sabem que “
para grandes males, grandes remédios”. Força, determinação e vontade de vencer, acompanha-os  a
todos  e por  todo o lado.