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O Descanso...
...Repousemos, também, nós um pouco, é irresistível o convite ao repouso e à reflexão, porque esta natureza é assim, exige-nos tantos sacrifícios físicos que de vez em quando são compensados com momentos de paz e sossego. Sem nos apercebermos damos por nós envolvidos com a natureza, num silencio onde só a própria pode quebrar as regras...sente-se uma ligeira brisa, refrescante e perfumada com os aromas de frutos silvestres, de árvores suspensas numa encosta os quais só os pássaros e os insectos conseguem saborear, devido à inacessibilidade do homem. Esta brisa provoca, nas folhas das árvores diversos sons flauteados, consoante as texturas e tamanho das mesmas, o chilrear dos pássaros varia e ecoa nas rochas conforme a distância a que se encontram, ouvem-se ao longe as cascatas na ribeira... é uma sinfonia onde todos os elementos intervenientes conhecem bem o seu papel. Tudo em redor nos traz tranquilidade, serenidade, confiança e sobretudo paz interior. Ensinaram-nos que Deus criou tudo isto, e sem nos apercebermos, somos transportados para um outro estado de espirito ainda mais profundo, um estado de alma superior, que desperta em nós o desejo e uma curiosidade enorme, até uma inquietação, de conhecer o autor desta sinfonia e o criador deste palco... (.../...) ...O local onde nos encontramos é conhecido por “ O Descanso ” ,fica situado sensivelmente a meio do percurso entre a Beira da Achada e a Ribeira do Cidrão, uma vereda íngreme, que contorna um córrego, com cerca de oitocentos degraus em calçada, percurso extremamente violento, sobretudo para quem sobe, porque vem sempre carregado...mas quem desce também vai carregado, deslocar-se nestes sítios de um lado para outro sem transportar qualquer carga é impensável . Quem passa por este local, carregado ou não, é quase obrigado a parar para o descanso, mesmo que não esteja cansado. É realmente um lugar fascinante! A sombra dos castanheiros enormes, junto á vereda, duas paredes feitas de pedra , onde ,cada qual , coloca os cestos ,os sacos, enfim tudo o que transporta, consoante a altura dos seus ombros, aqui todos sabem qual a pedra onde a sua carga se ajeita melhor, as próprias pedras parecem já estar moldadas com as formas de todos os pesos que têm que suportar... Do outro lado da vereda, no meio das ervas, as pedras no chão, também já polidas e brilhantes, servem de bancos a quem pretende sentar-se e repousar...mesmo ao lado ouve-se uma pequena queda de água que corre no chamado “Corgo do Descanso”. Além de repousante e refrescante este local, parece um daqueles pontos de cruzamento num carreiro de formigas, é o ponto de passagem entre o centro e os sítios a norte do Curral. Por aqui passam todos...cruzam-se os que vêm e os que vão para o Funchal, dos que se movimentam para o Sul e para o Norte . Todos param aqui . No ” Descanso “. Conversa-se de tudo e com todos, sabe-se as novidades dos que vêm da Cidade .Os que regressam da lavoura, parecem querer exibir os seus produtos, numa concorrência natural, sabem que neste ponto muitos vão observá-los...é um lugar onde acontece tudo, sem que na realidade nada aconteça... porque tudo acontece todos os dias e todos os dias os acontecimentos são os mesmos. Por aqui passam também alguns aventureiros, estrangeiros, e todo o tipo de caminhantes que vão para o norte da Ilha ,vão e regressam de destinos como Pico Ruivo, Boaventura, etc.. Quanto mais penetramos e convivemos com esta natureza, mais facilmente percebemos a origem das coisas, o porquê desta força que nos dá tanto alento, o poder para tantas energias que se movem em simultâneo, parece que vamos interiorizando e aprofundando este estado de alma... aquilo que nos parece muito complicado e que não têm explicação, afinal está á nossa volta, apenas precisamos de observar e aceitar com humildade , o que a natureza nos oferece e nos ensina. Não há forma de atingir o sossego e a paz interior que todos procuramos, se não formos capazes de ver para além das montanhas...Todos sabem que devem para no “Descanso”. São estas montanhas que suportam toda a força da natureza que sem limites suporta a vida de todos nós... Martinho Jorge
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