Finalmente Domingo



Finalmente domingo... parece ter chegado finalmente o sétimo dia, momento que todos merecidamente
ansiavam. O Domingo é dia Santo e em dia santo não se trabalha. É obrigatório ir á missa. Veste-se a
roupa religiosamente guardada para a ocasião e os sapatos, feitos de forma artesanal, pelo sapateiro da
terra. Todos com mesmo formato, modelo e cor. Um luxo que não é acessível a todos, pois a maioria anda
descalça.
Mas o dia de descanso começa logo de manhã bem cedo por, transportar grandes molhos de erva, para
dar de comer aos animais e com a rega de algumas hortas, porque a natureza não têm dias de descanso.
Até chegar á igreja, no centro da freguesia, para quem habita nos sítios mais distantes, ainda é preciso
caminhar cerca de uma hora até lá chegar.
Na igreja, local de reunião de toda a comunidade, já todos ocuparam os seus lugares, homens á frente e
as mulheres, todas de mantilhas negras, a trás , quase todos vestem de negro...  assiste-se á longa missa
que parece nunca terminar...alguns mostram alguns sintomas de saturação...mas o Padre diz ”que é
preciso ter muita paciência...”, ”é preciso aguentar o sofrimento...”, “ é mais fácil entrar um burro no
buraco de uma agulha que um rico no reino dos céus...” um cicio envolvido num calor sufocante, dá para
pensar, que com tantos sacrifícios e a acreditando nas profecias, todos  sentem que o Céu está certo mas
muito distante.
Nota-se um suspiro de alívio, pelo dever cumprido, quando o padre diz: ”Vamos em paz e o Senhor vos
acompanhe”. Logo depois, no adro, uma espécie de fórum da comunidade, apregoam-se os pregões.
Estes pregões são um conjunto de informações, anúncios e avisos, feitos normalmente pelo regedor ou
por alguém mais habilidoso, de figura imponente e respeitado no meio, de pé em cima dos assentos do
adro, num plano superior, tenta, com as mãos, á volta dos lábios, em forma de megafone, chegar a todos
que atenciosamente o escutam. O burburinho parece contagiar todos e o ânimo exalta-se um pouco...
Numa coisa todos estão de acordo, a conversa deve terminar em local apropriado...As poucas e
pequeníssimas tabernas ficam repletas... mais uns copinhos de vinho. No “Quartinho” não cabem todos...
vão-se alternando em pequenos grupos...mais dois dedos de conversa. No adro e arredores já só há
homens, as mulheres vão já a caminho de casa. É Domingo o almoço chega um pouco mais tarde, mas
também um pouco “melhorado”.
Ao chegar a casa muda-se de roupa e de sapatos, que ficarão religiosamente guardados até ao próximo
dia Santo, sim porque aquela é a “ roupa da missa”.
Nos pontos de encontro, em cada sítio, os mais novos diferenciam o domingo dos restantes dias: jogam
ao peão, anel, lenço...os mais velhos conversam, regam as hortas, tratam dos animais...não conseguem
estar parados sabendo que há tanto por fazer.
São assim os domingos, ditos dias santos e de “descanso”. Para um dia tão ansiosamente esperado; de
domingo teve tudo, de descanso muito pouco, e de santo, talvez tanto como todos os outros dias que
também o são...é a cumplicidade entre todo o universo da natureza.