MONTANHAS...SOMOS NÓS (2)




...Ter nascido e vivido há muitos anos atrás, foi verdadeiramente uma luta e uma forma de vida desigual.
Recuemos, alguns anos, aos primórdios do século passado. Proponho-vos então uma viagem através dos
tempos...
Para mergulharmos na época e no quotidiano das pessoas. Imagine...o acesso ao Curral das Freiras que,
só é possível a pé, subindo desde o Funchal até à Eira do Serrado a uma altitude aproximada dos mil e
noventa metros, depois iniciar a descida até ao centro, isto num percurso com uma duração nunca inferior
a quatro horas, para o ritmo e tipo de andamento da época (... actualmente, fazer o percurso, por estas
veredas só com preparação física adequada é possível devido á dureza do mesmo...), percorrendo as
veredas íngremes, autênticos desfiladeiros, com Sol, com frio, à chuva ou de noite… era sempre
necessário...por tudo e para tudo...não pense que iam em passeio...iam carregados com pesados cestos
ou sacos com tudo o que era necessário...e necessário era tudo... e para completar este quadro imagine,
também, o tipo de calçado e roupas existentes na época...
...Chegados ao centro...é já por do Sol, encontramos um grupo de pessoas, rodeados de enormes cestos
cheios de produtos da terra, pairam no ar aromas agradáveis, vindos destes cestos coloridos de frutas
variadas: Ameixas, maçãs, damascos, pêssegos, pêros,...autentico arco-íris de cores e fragrâncias, numa
atmosfera verdadeiramente tranquilizante....estes homens e mulheres fazem os preparativo para o
percurso inverso, uns vão partir logo depois da ceia, vão caminhar durante a noite, no Verão este
percurso faz-se durante a noite, o destino é o “Mercado dos Lavradores” no Funchal, preferem “dormir”
ou descansar depois de lá chegar, outros partirão logo pela manhã, bem cedo, vão chegar a Stº António,
onde de porta em porta irão vender os seus produtos, aqueles produtos frescos: leite, ovos, mel de
abelhas, amoras, ervas aromáticas.... as cargas são pesadas, quanto mais se transportar... mais uns
centavos . Uns metros acima encontramos alguém doente...mas... e os doentes?...não têm horas, nem dia
nem noite, Sol ou chuva...é sempre urgente e não há tempo a perder...mas como ganhar tempo se é
preciso tanto tempo para lá chegar... o médico ou o hospital fica tão distante e é necessário transportá-
los numa “rede”. Desta vez aumenta o grau de dificuldade é-lhes exigido um esforço físico e mental sub-
humano...mas tudo aqui já é sobre e sub-humano...mas também o humanismo, a humilde é a coragem,
estão por todo o lado e sobretudo na fé destas gentes. Só assim se compreende como é que estes
homens conseguem ter tanta coragem  e forças , para transportar , ás costas, os seus familiares e
vizinhos, durante horas  a fio...não lhes basta o esforço  físico a que são submetidos, mas também terem
que transportar a emoção, a tristeza, a angustia e o sofrimento de quem de dentro da rede grita com
dores e por um percurso que parece não ter fim... acrescente-se ainda os cuidados a ter para manterem
o equilíbrio  e evitar a queda.
Cai a noite. Aqui a noite é mesmo escura... Não há luz eléctrica e as montanhas parecem aquelas cortinas
opacas que temos em nossas casas para não deixar entrar o sol, que a tornam ainda mais escura...aqui e
além aprece umas réstias de luz... são as lareiras... porque o único combustível existente é a lenha...
noutras casas são as velas que dão um pouco de claridade, noutras as candeeiros a petróleo, no alto da
montanha uns pontos luminosos parecem serpentear, são as lanternas a petróleo dos que vão a caminho
da cidade. Ultimam-se as últimas tarefas, porque o horário de trabalho por aqui, inicia-se ainda antas do
nascer do sol, a exaustão tomou conta de todos e amanhã é preciso levantar bem cedo. À medida que a
escuridão aumenta é maior o silencio...noticias do doente só amanhã...será que não houve nada?
Poderiam ter caído com a rede?! Deus há-de ajudá-los...o rádio e a televisão ainda não fazem parte...
nem do seu imaginário...
Noutra noite...as pessoas jantam á luz das velas, conversam em redor da lareira… lá fora está uma noite
de lua cheia, com o céu estrelado, os vizinhos juntam-se nos portais das casas e nos quintais, algumas
crianças brincam: correm de um lado para outro riem-se ás gargalhadas, não se entende bem porquê,
outras sentadas ao colo dos adultos ouvem, sem pestanejar, as suas conversas... falam de quê?...as
terras, as plantações, o gado...e os outros grupos, noutros locais? Que estarão eles a conversar?...a
chuva, o sol, o vento...outros, já com a lanterna na mão, aguardam que o “levadeiro“ os chame para
regar, não se pode perder o “giro”, seja a que horas forem. Nas lareiras a lenha vai diminuindo
lentamente a intensidade da luz e as pessoas vão já pestanejando... aumentam os intervalos entre as
palavras, o tom é cada vez mais baixo e mais lento... de repente alguém diz boas noites!!! São horas de
deitar. Passados minutos só se ouve o barulho do silêncio da noite.
Os galos cantam cerca das cinco da manhã, e esta agitação nas capoeiras parece contagiar, toda a
gente. São horas de levantar. O dia começa cedo...cada qual já sabe quais os deveres, ainda não há
tema de conversa...cuidar dos animais, lavrar as terras ou inevitavelmente por a carga às costas e fazer-
se á montanha rumo ao Funchal.
Nascem os primeiros raios de sol quando alguns caminhantes estão a chegar à Eira do Serrado. Fazem
uma primeira pausa...olham para trás, sentam-se um pouco e observam como uma águia lá do cimo dos
montes, os movimentos de quem focou lá no fundo do vale: conseguem ver as suas terras a suas casas,
os seus filhos que já andam com os animais...a chaminé já fumega...o dia vai ser quente, pelo dourado
que já cobre o cimo dos montes, tudo em seu redor é mesmo repousante: o cheiro das plantas das ervas
e das flores, o chilrear dos pássaros, as cascatas de água nos riachos...a vontade de continuar não os
deixa esquecer que o tempo é pouco e o calor aumenta, lançam um ultimo olhar para trás, bebem um
pouco de água, volta a carregar o cesto e inicia a descida para o Funchal. Enquanto caminha, conhece
todas as pedras das veredas, até parece que estas já esperam a sua passagem, na memória e nos seus
pensamentos transporta consigo um único desejo...voltar cedo e depressa para casa.


Martinho Jorge

6-06-2003